«Na manhã nevada de sete de abril, desceram de novo a terra para cumprir tão horrenda sentença.»
Gaspar Quesada, condenado à morte, ia ser decapitado. Depois, o seu corpo iria ser esquartejado e os pedaços do corpo espetados em estacas.
Luis de Molino, o seu criado, também condenado à morte, teve a pena perdoada, porque aceitou ser ele a executar o seu senhor.
O Agrupamento de Escolas Paulo da Gama integra a Rede de Escolas Magalhânicas. Neste blogue, pretendemos partilhar os trabalhos relacionados com o projeto Magalhães que estão a ser desenvolvidos na EB 2,3 Paulo da Gama (Amora). Partilhamos, também, informação sobre o próprio navegador e sobre esse notável acontecimento histórico que foi a viagem de circum-navegação, da qual resultaria a revelação da dimensão do mundo e de que se comemoram os seus 500 anos.
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terça-feira, 7 de abril de 2020
sábado, 4 de abril de 2020
O julgamento dos amotinados
Fernão de Magalhães mandou os "escribeiros" tomarem nota do que contavam as testemunhas da rebelião, pois tudo deveria ser apresentado mais tarde a el-rei.
Terá sido a 4 de abril de 1520 que foi feito juízo sumário dos envolvidos na rebelião.
«Depois da comida da manhã, desceram aos batéis e seguiram quase todos para terra. O que antes fora um altar transformou ele numa mesa de tribunal extraordinário, apenas com um manto cor de vinho que oscilava com o vento e a Bíblia sagrada. Mandou acender nova fogueira para aquecer os corpos, chamar a tripulação, e também os prisioneiros para que fossem julgados e sentenciados na frente de todos. Na mesa sentou-se Magalhães rodeado de homens armados - Espinosa era agora o seu braço forte e tinha montado uma guarda pessoal com os seus militares mais fiáveis. À sua frente foram arrojados todos os homens a sentenciar. Os seus corpos tremiam, de frio e de medo. Em tal juízo, só o padre Pedro de Valderrama ousou apelar à santidade do perdão por todos aqueles homens que se ajoelhavam à sua frente.»
Todos seriam condenados, mas os marinheiros e homens de armas - cerca de 40, entre eles Sebastian del Cano - far-lhe-iam falta. Acabaram por ser libertados.
Terá sido a 4 de abril de 1520 que foi feito juízo sumário dos envolvidos na rebelião.
«Depois da comida da manhã, desceram aos batéis e seguiram quase todos para terra. O que antes fora um altar transformou ele numa mesa de tribunal extraordinário, apenas com um manto cor de vinho que oscilava com o vento e a Bíblia sagrada. Mandou acender nova fogueira para aquecer os corpos, chamar a tripulação, e também os prisioneiros para que fossem julgados e sentenciados na frente de todos. Na mesa sentou-se Magalhães rodeado de homens armados - Espinosa era agora o seu braço forte e tinha montado uma guarda pessoal com os seus militares mais fiáveis. À sua frente foram arrojados todos os homens a sentenciar. Os seus corpos tremiam, de frio e de medo. Em tal juízo, só o padre Pedro de Valderrama ousou apelar à santidade do perdão por todos aqueles homens que se ajoelhavam à sua frente.»
João Morgado, Fernão de Magalhães e a ave-do-paraíso
Todos seriam condenados, mas os marinheiros e homens de armas - cerca de 40, entre eles Sebastian del Cano - far-lhe-iam falta. Acabaram por ser libertados.
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| A tripulação jura fidelidade a Fernão de Magalhães depois do motim |
Mas os cabecilhas foram condenados.
O capitão Gaspar de Quesada, que tinha apunhalado o mestre Juan Elorriaga - tinha cometido crime de sangue - foi condenado à morte.
O capitão Juan de Cartagena, que havia sido nomeado pelo próprio rei e que era sobrinho do bispo de Burgos (conselheiro real e presidente do Conselho das Índias, que fora decisivo no apoio do rei à expedição de Magalhães), foi condenado a ficar desterrado "para todo o sempre" naquela terra gélida da baía de San Julian, quando a armada partisse. Com ele ficaria o seu cúmplice, frei Pedro Sánchez de la Reina, capelão da nau Concepción, que sempre instigou à rebelião.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
A contra-ofensiva de Fernão de Magalhães
Na manhã do dia 2 de abril de 1520, Fernão de Magalhães ficou a saber da rebelião quando da nau Concepción informaram que só recebiam ordens do capitão Gaspar Quesada.
Este capitão enviou uma carta a Magalhães, justificando a ação realizada.
Os capitães espanhóis consideravam-se marginalizados por Magalhães, porque este não lhes dava quaisquer informações nem os ouvia quanto às decisões a tomar. Eles também tinham responsabilidades e obrigações relativamente à frota e à sua tripulação. Reclamavam, portanto, um tratamento mais condigno e que fossem respeitadas as suas funções.
Mas Magalhães respondeu de uma forma que os capitães revoltosos não contariam.
Prendeu os marinheiros que tinham ido na chalupa (pequeno barco de apoio às naus) que Quesada enviara com a sua carta.
Fernão de Magalhães enviou essa chalupa à nau Victória, mas só com homens da sua confiança. Entre eles Gomez Espinosa, aguadil da armada* e fiel mestre de armas, que entregou ao capitão Luis de Mendoza um convite para um encontro com Fernão de Magalhães no navio-almirante, matando-o de seguida com um punhal.
O grupo de homens bem armados que seguia na pequena embarcação subiu a bordo da Victoria e assumiu o comando da nau, surpreendendo a tripulação.
Passaram a ser três, então, as naus do lado de Magalhães contra as duas dos amotinados. E as três naus dispuseram-se de forma a bloquear uma possível tentativa de saída da baía por parte da San Antonio e da Concepción.
Homens fiéis a Fernão de Magalhães controlaram, sem resistência, as duas embarcações rebeldes.
Os capitães revoltosos foram presos e Álvaro Mesquita foi libertado.
Magalhães recuperou o domínio da situação, mas terá ficado a pensar no que devia fazer.
«O rei atribuiu-lhe expressamente o direito ilimitado sobre vida e morte, mas os principais culpados são simultaneamente pessoas de confiança da coroa. Para manter a sua autoridade, Magalhães teria de aplicar um castigo exemplar, só que não pode castigar todos os amotinados.»
Como poderia Magalhães continuar a viagem se tivesse de castigar severamente mais de um quinto da tripulação?
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* Aguadil - Oficial de justiça nos navios espanhóis, encarregue de fazer cumprir as ordens judiciais, incluindo os castigos impostos aos delinquentes e a vigilância dos prisioneiros.
Este capitão enviou uma carta a Magalhães, justificando a ação realizada.
Os capitães espanhóis consideravam-se marginalizados por Magalhães, porque este não lhes dava quaisquer informações nem os ouvia quanto às decisões a tomar. Eles também tinham responsabilidades e obrigações relativamente à frota e à sua tripulação. Reclamavam, portanto, um tratamento mais condigno e que fossem respeitadas as suas funções.
Mas Magalhães respondeu de uma forma que os capitães revoltosos não contariam.
Prendeu os marinheiros que tinham ido na chalupa (pequeno barco de apoio às naus) que Quesada enviara com a sua carta.
Fernão de Magalhães enviou essa chalupa à nau Victória, mas só com homens da sua confiança. Entre eles Gomez Espinosa, aguadil da armada* e fiel mestre de armas, que entregou ao capitão Luis de Mendoza um convite para um encontro com Fernão de Magalhães no navio-almirante, matando-o de seguida com um punhal.
O grupo de homens bem armados que seguia na pequena embarcação subiu a bordo da Victoria e assumiu o comando da nau, surpreendendo a tripulação.
Passaram a ser três, então, as naus do lado de Magalhães contra as duas dos amotinados. E as três naus dispuseram-se de forma a bloquear uma possível tentativa de saída da baía por parte da San Antonio e da Concepción.
Homens fiéis a Fernão de Magalhães controlaram, sem resistência, as duas embarcações rebeldes.
Os capitães revoltosos foram presos e Álvaro Mesquita foi libertado.
Magalhães recuperou o domínio da situação, mas terá ficado a pensar no que devia fazer.
«O rei atribuiu-lhe expressamente o direito ilimitado sobre vida e morte, mas os principais culpados são simultaneamente pessoas de confiança da coroa. Para manter a sua autoridade, Magalhães teria de aplicar um castigo exemplar, só que não pode castigar todos os amotinados.»
Stefan Zweig, Magalhães - o homem e o seu feito
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| Réplica do gabinete de Fernão de Magalhães na nau (apesar da nau Victoria não ser aquela que Magalhães capitaneava) (Museo Tematico Nao Victoria - San Julián) |
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* Aguadil - Oficial de justiça nos navios espanhóis, encarregue de fazer cumprir as ordens judiciais, incluindo os castigos impostos aos delinquentes e a vigilância dos prisioneiros.
A rebelião no Puerto de San Julián
Os rebeldes dirigiram-se, na escuridão da noite, para a nau San Antonio, onde prenderam Álvaro de
Mesquita (primo de Magalhães e que este nomeara capitão da San Antonio durante a viagem) e Gaspar Quesada apunhalou o mestre do navio, Juan de Elorriaga (fiel a Magalhães). Os tripulantes portugueses que se encontravam a bordo foram presos.
Para garantir o apoio da restante tripulação, abriram a despensa de bordo, permitindo o acesso a uma boa ração de pão e de vinho.
O comando da nau foi confiado a Juan Sebastian del Cano, enquanto os líderes do motim regressaram às naus de onde tinham saído, tendo-as prontas para qualquer combate que pudesse vir a ser travado.
Ao início do dia 2, os revoltosos controlavam, portanto, 3 das naus da armada: San Antonio, Concepción e Victoria.
Do outro lado, Fernão de Magalhães capitaneava a Trinidad e poderia contar com o apoio da Santiago, a mais pequena e fraca das naus, capitaneada por Juan Rodríguez Serrano.
E é nestas condições que vamos passar a noite.
Fernão de Magalhães deve ter dormido descansado, na ignorância do que se tinha passado.
Ao início do dia 2, os revoltosos controlavam, portanto, 3 das naus da armada: San Antonio, Concepción e Victoria.
Do outro lado, Fernão de Magalhães capitaneava a Trinidad e poderia contar com o apoio da Santiago, a mais pequena e fraca das naus, capitaneada por Juan Rodríguez Serrano.
E é nestas condições que vamos passar a noite.
Fernão de Magalhães deve ter dormido descansado, na ignorância do que se tinha passado.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Racionamento e Missa
A decisão de Fernão de Magalhães em passar o inverno em S. Julián causou o desagrado geral.
Para agravar esse estado de espírito, ordenou um racionamento dos víveres da tripulação - a dose diária de alimentos e de vinho iria ser reduzida. Em terra, podia ser que encontrassem mais víveres.
Provocou a exaltação da tripulação.
No seu raciocínio, que não estava errado, só dali a muitos meses é que iriam atingir as férteis terras tropicais. O racionamento revelava-se-lhe como a salvação da tripulação para a travessia do Pacífico, que calculava ser longa.
Era verdade, mas nem a passagem para o Pacífico ele tinha ainda descoberto!
A vontade da tripulação era voltar para trás.
Já era suficiente o que tinham feito - nenhum europeu tinha chegado tão a Sul!
Uma comissão parlamentou com o capitão-general, que lhes lembrou o compromisso assumido perante o rei de Espanha.
«O prosseguimento da jornada ao longo da costa da Patagónia já foi uma espécie de fuga para a frente, pois Magalhães não tinha condições pessoais nem políticas para regressar a Castela sem uma descoberta.»
A 1 de abril, domingo de Páscoa ou domingo de Ramos (a informação varia conforme os autores), Fernão de Magalhães mandou celebrar uma missa em terra.
Fernando Oliveira (escrito entre 1560 e 1570, com base num livro - uma história da "viagem de Fernão de Magalhães escrita por um homem [Gonzalo Gomez de Espinosa?] que foi na companhia")
Para agravar esse estado de espírito, ordenou um racionamento dos víveres da tripulação - a dose diária de alimentos e de vinho iria ser reduzida. Em terra, podia ser que encontrassem mais víveres.
Provocou a exaltação da tripulação.
No seu raciocínio, que não estava errado, só dali a muitos meses é que iriam atingir as férteis terras tropicais. O racionamento revelava-se-lhe como a salvação da tripulação para a travessia do Pacífico, que calculava ser longa.
Era verdade, mas nem a passagem para o Pacífico ele tinha ainda descoberto!
A vontade da tripulação era voltar para trás.
Já era suficiente o que tinham feito - nenhum europeu tinha chegado tão a Sul!
Uma comissão parlamentou com o capitão-general, que lhes lembrou o compromisso assumido perante o rei de Espanha.
«O prosseguimento da jornada ao longo da costa da Patagónia já foi uma espécie de fuga para a frente, pois Magalhães não tinha condições pessoais nem políticas para regressar a Castela sem uma descoberta.»
João Paulo Oliveira e Costa, O homem que descobriu o planeta azul,
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| Vista aérea da atual cidade de San Juan (Argentina) |
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| Pormenor de uma aguarela de Inés Anzoátegui representando a celebração da missa |
«(...) o primeiro domingo depois que aqui entraram, saíram todos em terra, e disse missa um sacerdote que ia na companhia, a qual ouviram com muita devoção e alegria do espírito, porque havia muitos dias que não fizeram outro tanto. Isto foi no mês de Abril de quinhentos e vinte, havendo já nove meses que partiram de Sevilha.
E mandou o capitão-mor que fossem alguns homens a um monte muito alto que estava aí perto e pusessem nele uma cruz, e pôs-lhe nome Monte de Cristo.»Fernando Oliveira (escrito entre 1560 e 1570, com base num livro - uma história da "viagem de Fernão de Magalhães escrita por um homem [Gonzalo Gomez de Espinosa?] que foi na companhia")
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| San Julián - Monumento à primeira missa celebrada |
Magalhães também tinha convidado os capitães das naus para, depois da celebração da missa, almoçarem com ele a bordo da Trinidad.
Mas os capitães espanhóis não compareceram ao almoço.
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