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domingo, 29 de novembro de 2020

A travessia do Estreito

Pigafetta escreveu: «Enfim, creio que não há no mundo melhor estreito do que este.»

Poderá ter exagerado, mas quem não o faria na situação em que se encontravam?

Após a travessia do estreito, que demorou 38 dias - grande parte deles à espera da San Antonio, quando esta desapareceu - calculou-se que ele teria cerca de 110 léguas - 610 km aproximadamente.


«A passagem lenta pelo estreito de paredes altaneiras terá sido um prolongamento dessa angústia e a chegada ao oceano Pacífico terá suscitado um júbilo e uma alegria fáceis de imaginar mas impossíveis de recriar. Esse foi o primeiro triunfo de Magalhães, ou seja, o primeiro grande contributo para a geografia com a descoberta da passagem que era procurada há 28 anos.»

João Paulo Oliveira e Costa, O homem que descobriu o planeta azul

Desenho de Bastien Orenge e Thomas Verguet
na BD Magalhães até ao fim do mundo


Se Magalhães denominou o estreito de "Canal de Todos os Santos", Pigafetta refere-o como "Estreito da Patagónia". Outras fontes chamam-lhe "Estreito da Vitória" e "Estreito da Madre de Deus".



À sua saída, «é com uma tonitruante salva de artilharia que as três pequenas naus solitárias saúdam respeitosamente o mar desconhecido» (Stefan Zweig).


sábado, 28 de novembro de 2020

Finalmente, o Pacífico!

Decorrido mais de um mês desde a entrada no Estreito, a armada, reduzida a 3 naus e 166 homens, fazia a sua entrada no tão desejado Mar do Sul.

Desejado foi o nome posto ao último cabo ultrapassado (o atual Cabo Pilar), "pelo muito que nos agradou vê-lo".


«E assim, pela graça de Deus, fomos singrando plenamente no Mar do Sul, a caminho das Molucas, com grande contento da gente e de mim próprio, porque fizemos aquilo que ninguém fez antes (...)

E como navegávamos por aquele mar grandíssimo como se fosse por um rio, dei em batizá-lo Pacífico.»

José Manuel Núñez de la Fuente, Diário de Fernão de Magalhães



domingo, 8 de novembro de 2020

A exploração do Estreito, a última da San Antonio

A navegação chegaria a uma bifurcação, momento em que Magalhães mandou a San Antonio e a Concepción explorarem um dos canais, enquanto a Trinidad e a Victoria seguiram a rota que levavam, até atingirem um ponto seguro, onde ficaram a aguardar pelas outras naus, junto ao que viriam a chamar rio das Sardinhas ou Puerto de las Sardinas, na baía de Fortescue. 


Baía de Fortescue vista de terra

«(...) os quatro navios vogaram em conjunto em direção ao estreito recém-descoberto, onde não tardaram a encontrar as duas entradas, uma a sudeste e outra a sudoeste. Magalhães mandou o San Antonio e o Concepción à frente para descobrirem qual destas duas aberturas era a primeira a conduzir ao Oceano Pacífico. Sem esperar pelo Concepción, o San Antonio partiu primeiro e nunca mais voltou.»

A Trinidad e a Victoria foram «navegando através dos estreitos até chegarem a um rio a que deram um nome relacionado com as sardinhas muito abundantes por ali naquele mês. Esperaram ali quatro dias pelo San Antonio e pelo Concepción

Edouard Roditi, Magalhães do Pacífico


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A exploração do estreito

Terá sido a 28 de outubro que as naus levantaram âncora e iniciaram o caminho que já antes a San Antonio e a Concepción percorreram. 

A exatidão dos dias é discutível. O nome que Fernão de Magalhães terá dado ao estreito, "Canal de Todos os Santos", remete para o início de novembro, quando a armada estaria a fazer a sua travessia. Mas em que ponto, ou em que momento, é que Magalhães lhe terá dado esse nome?

«Antes de a armada entrar pelo estreito, Magalhães terá questionado se deveria avançar-se ou não. Apesar de Estevão Gomes [piloto português da nau San Antonio] ter sido da opinião que deviam regressar a Espanha para ali se aprestar outra armada para dar seguimento à viagem, seguiu-se o parecer do capitão-mor pois este respondeu-lhe que se passaria avante até cumprir a promessa feita ao imperador, mesmo que houvesse de comer os coiros que forram o topo dos mastros.

José Manuel Garcia, Fernão de Magalhães - Herói, traidor ou mito

«Aquelas montanhas, do estreito de Magalhães, estão todas cobertas de neve. Portanto aquilo é tudo complicado, um vento muito forte, correntes muito fortes - embora o estreito de Magalhães seja razoavelmente largo, exceto na entrada que é mais estreita, mais ou menos a distância que vai de Belém à Trafaria, na foz do Tejo. Dá para passarem perfeitamente os navios. Portanto, são as condições atmosféricas e as correntes marítimas que, nesses 600 quilómetros, tornam difícil a navegação. E, sobretudo, porque tem muitas ilhas e tem muitos contornos difíceis, mas, mesmo assim, os navios, com a mestria de Fernão Magalhães e dos seus pilotos, conseguiram.»

É graças a Magalhães que conhecemos a Terra tal como ela é
entrevista ao historiador José Manuel Garcia
Diário de Notícias, 21 de outubro de 2020

A navegação chegaria a uma bifurcação, momento em que Magalhães mandou a San Antonio e a Concepción explorarem um dos canais, enquanto a Trinidad e a Victoria seguiram a rota que levavam, até atingirem um ponto seguro, onde ficaram a aguardar pelas outras naus, junto ao que viriam a chamar rio das Sardinhas ou Puerto de las Sardinas, na baía de Fortescue. 


Baía de Fortescue vista de terra

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A exploração da baía

Os pilotos terão manifestado a convicção de que aquela baía era fechada. Deviam avançar!

Magalhães insistiu em explorar a enseada.

A San Antonio e a Concepción receberam a missão de avançar tanto quanto possível na exploração do interior da baía, mas de regressar no prazo máximo de 5 dias.

A Trinidad e a Victoria ficaram a explorar a parte exterior da baía. 

Uma tempestade - furacão? - fustigou a baía. As duas naus que aguardavam nada sabiam do que poderia ter acontecido às duas que partiram para a exploração do interior da enseada.

Ao fim do prazo dado (ou já depois?) as duas naus estavam de regresso. E quando toda a frota ficou à vista, a San Antonio e a Concepción dispararam salvas de canhões e içaram todos os pavilhões e todas as auriflamas: era a "linguagem da vitória".

Estas duas naus tinham conseguido escapar à tempestade e entre as reentrâncias descobriram um canal. Nova enseada, novo canal, nova enseada...


«Assim foram navegando durante três dias, sem encontrarem o fim daquela espantosa via marítima. Não conseguiram achar a saída definitiva, mas era impossível que aquela estranha passagem fosse um rio, pois a água mantinha-se invariavelmente salgada, a maré alta e a maré baixa deixavam as suas marcas regulares e uniformes na areia da praia. (...)»

 Stefan Zweig, Magalhães - o homem e o seu feito

Estaria encontrada a passagem...


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A descoberta do Estreito

No dia 21 de outubro de 1520, foi avistado um cabo formado por uma vasta ponta de areia. Foi-lhe dado o nome de Cabo das Virgens ou das Onze Mil Virgens, assinalando o feriado de Santa Úrsula e a lenda das Onze Mil Virgens que a teriam acompanhado. Atualmente, chama-se Punta Dungenesse. 

«(...) e ali vimos uma abertura como baía, e tem à entrada, à mão direita, uma ponta de areia muito comprida; o cabo que descobrimos antes desta ponta chama-se o "cabo das Virgens"; a ponta de areia está em 52 graus de latitude, e de longitude está 52 graus e meio; da ponta de areia à outra parte serão cerca de 5 léguas; dentro desta baía achámos um estreito que terá uma légua de largura

Francisco Albo*, Diário ou roteiro da viagem de Magalhães


«Toda a tripulação acreditava tão firmemente que o estreito não tinha saída para o oeste que não era prudente mesmo ir procurá-la sem ter os grandes conhecimentos do capitão-general. Este, tão hábil como valente, sabia que era preciso passar por um estreito muito oculto (...)»

Antonio Pigafetta, A Primeira Viagem em Redor do Mundo



* Francisco Albo, contratado como contramestre da nau Trinidad, ocupou o lugar de piloto da nau Victoria. Nessa condição, foi um dos 18 tripulantes que regressou a Sevilha, completando a volta ao mundo.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

A exploração do rio da Prata

O historiador José Manuel Garcia, que será o maior especialista português da viagem de Fernão de Magalhães, diz que o estuário do rio da Prata «foi mandado explorar, tendo-se confirmado rapidamente que se tratava de um curso de água doce e não da tão procurada passagem para o "mar do Sul", como então se chamava o oceano que seria denominado de Pacífico, depois da viagem de Fernão de Magalhães.»


Mas as naus ali andaram, desde 10 de janeiro a 2 ou 3 de fevereiro.
Magalhães terá pensado, inicialmente, que se tratava do estreito tão procurado.
«Todos a bordo também estavam unanimemente convencidos de terem encontrado finalmente a tão ansiada passagem naquela ampla via marítima pois (...), ali a amplidão das águas expandia-se até ao infinito; aquele golfo só podia ser o início de um outro estreito de Gibraltar, de um outro canal da Mancha, de um outro Helesponto, unindo oceano com oceano. (...)
Quinze dias inteiros se passam, ou antes, se desperdiçam, numa busca vã pelo estuário do rio da Prata. Mal a tempestade, que os tinha acometido logo à chegada, amaina um pouco, Magalhães divide a frota. As naus mais pequenas são enviadas para ocidente pelo suposto canal (seguindo, na realidade, rio acima). Ao mesmo tempo, e sob o seu comando pessoal, as duas naus maiores atravessam o rio da Prata em direção ao sul, "por ver si habia pasage" e até onde os levaria ela. (...) Mas que amarga deceção!»
Stefan Zweig, Magalhães - o homem e o seu feito


O estreito, a existir, ficaria mais a sul.